O novo padrão universal do varejo? Como o Google quer unificar toda a jornada de compra com IA

por Bruno | jan 18, 2026 | Comportamento de Compra, Inteligência Artificial

Descobrir produtos, comparar preços, buscar avaliações, decidir, comprar, pagar e receber suporte. Essa sempre foi a jornada clássica de consumo no varejo digital. Fragmentada, distribuída entre buscadores, sites, marketplaces, meios de pagamento e canais de atendimento.

Mas isso está mudando rapidamente.

Durante a NRF Retail’s Big Show, maior evento de varejo do mundo, o Google deixou claro qual é sua visão para o futuro do comércio. Uma jornada totalmente integrada, conversacional e mediada por inteligência artificial, concentrada em um único ambiente.

Segundo Sundar Pichai, CEO da companhia, o varejo entra agora em um novo padrão universal.

Da busca ao checkout. Tudo em uma única conversa

A grande aposta do Google é transformar seus assistentes de IA, especialmente o Gemini, em muito mais do que ferramentas de busca. A ideia é que eles se tornem vitrine, vendedor e caixa ao mesmo tempo.

Na prática, isso significa que o consumidor poderá:

  • Descrever o que procura em linguagem natural

  • Receber recomendações personalizadas

  • Comparar preços e condições

  • Visualizar ofertas exclusivas

  • Finalizar a compra

  • Pagar com Google Pay

Tudo sem sair da conversa com a IA.

Esse modelo rompe com o fluxo tradicional do e-commerce, que hoje depende de anúncios, cliques, páginas de produto e checkouts próprios dos varejistas.

Universal Commerce Protocol. O novo padrão do varejo digital

O grande anúncio feito pelo Google na NRF foi o Universal Commerce Protocol (UCP), um padrão aberto criado em parceria com mais de 20 grandes varejistas globais, entre eles Walmart, Target, Shopify, Etsy e Wayfair.

O UCP permite que os catálogos das lojas se conectem diretamente ao Gemini, usando uma linguagem unificada. Com isso, produtos de diferentes marcas podem ser exibidos, comparados e comprados dentro do próprio ambiente do Google.

Segundo Pichai, o objetivo é eliminar fricções, distorções e etapas desnecessárias da jornada de compra.

Em um exemplo prático apresentado no evento, o consumidor poderia pesquisar por uma mala no Gemini e, na mesma conversa:

  • Ver diferentes opções de marcas

  • Receber um desconto exclusivo para novos clientes

  • Entrar automaticamente no programa de fidelidade

  • Finalizar a compra com Google Pay

Tudo sem acessar o site da loja.

Checkout nativo e impacto direto no e-commerce

Esse modelo introduz o conceito de checkout nativo, em que a compra acontece dentro do ecossistema do Google, não mais no site do varejista.

Para muitas marcas, isso traz ganhos claros de conversão. Redes como a Lowe’s, que já testam essas tecnologias, afirmaram que a taxa de conversão mais que dobrou quando os clientes interagem com assistentes baseados em IA.

Ao mesmo tempo, o movimento levanta alertas importantes.

Ao concentrar busca, recomendação e pagamento em uma única plataforma, o Google passa a controlar a interface com o consumidor. E, historicamente, quem controla a interface tende a disputar também a maior fatia do valor da transação.

O risco de virar um “fornecedor invisível”

Executivos do varejo global já demonstram preocupação com a possibilidade de suas marcas se tornarem apenas fornecedores em um ambiente dominado pela IA do Google.

Se o consumidor se relaciona com o Gemini, e não diretamente com a marca, o varejista perde:

  • Parte do controle sobre dados do cliente

  • Capacidade de construir relacionamento direto

  • Autonomia sobre a experiência de compra

  • Poder de negociação ao longo do tempo

No limite, o risco é o varejo passar a pagar um “pedágio” para acessar seu próprio consumidor.

Impactos para o varejo brasileiro e meios de pagamento

No Brasil, o movimento tende a gerar atenção redobrada, especialmente para players digitais de margem apertada, como Magazine Luiza e Casas Bahia.

Essas empresas dependem fortemente de tráfego próprio, dados de comportamento e personalização para manter eficiência comercial. Uma jornada mediada por IA pode pressionar ainda mais suas margens.

O mercado de pagamentos também entra no radar. Com o checkout acontecendo dentro do Google, a companhia passa a influenciar:

  • Origem das transações

  • Meio de pagamento utilizado

  • Distribuição da receita ao longo da cadeia

Adquirentes, gateways e fintechs podem sentir esse impacto diretamente.

Agentes de IA. O novo vendedor do varejo

Além do UCP, o Google apresentou outras ferramentas estratégicas para o varejo.

Uma delas é o Business Agent, um agente de IA treinado com dados da própria marca para atuar como um vendedor virtual. Ele responde dúvidas, recomenda produtos, conduz negociações e fala com o consumidor usando a linguagem da empresa.

Esses agentes já estão sendo testados por marcas como Reebok, Anker e Lowe’s, e ficam disponíveis via Google Merchant Center.

Outra funcionalidade relevante é a possibilidade de ativar ofertas diretas em tempo real, integradas ao Google Ads, com descontos que podem chegar a 20% para consumidores que demonstraram interesse, mas ainda não converteram.

O que isso muda para marcas e negócios

A mensagem do Google é clara. O e-commerce deixa de ser uma sequência de páginas e filtros para se tornar uma conversa.

As jornadas, como destacou Sundar Pichai, não serão mais baseadas em palavras-chave frias, mas em descrições naturais, preferências, contextos e intenções.

Para marcas e varejistas, isso exige uma mudança profunda de mentalidade:

  • Estrutura de dados mais organizada

  • Catálogos preparados para IA

  • Conteúdo pensado para conversas, não apenas SEO tradicional

  • Estratégias de mídia e performance integradas à experiência

  • Forte atenção à construção de marca fora das plataformas

O futuro do varejo é conversacional, integrado e disputado

O comércio mediado por agentes de IA não substitui completamente os canais tradicionais. Mas o avanço das grandes plataformas sobre mais uma etapa da jornada do consumidor segue um padrão conhecido.

Quem controla a interface, controla o jogo.

Para empresas que vendem online, o desafio agora é equilibrar conveniência, conversão e independência estratégica. A tecnologia avança rápido. A pergunta que fica é quem vai liderar essa nova jornada e quem apenas vai participar dela.

Na Select, acompanhamos de perto essas transformações para ajudar marcas a crescerem de forma sustentável, estratégica e preparada para o próximo padrão do varejo digital.